O Encontro entre o Transtorno e o Transcendente: Uma Reflexão de um Terapeuta
- Pablo Onofre
- 14 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Como terapeuta, eu me deparo constantemente com a linha tênue que separa o que a ciência classifica como psicose e o que a fé e a cultura popular interpretam como possessão demoníaca. O debate acadêmico é vigoroso, polarizado e, em minha experiência clínica, muitas vezes simplista. A ideia de que as duas coisas são mutuamente excludentes – ou é um, ou é outro – parece ignorar a complexidade da experiência humana, especialmente quando esta é atravessada por crenças religiosas profundas.
Minha perspectiva é que essa dicotomia é um paradoxo aparente. Eu defendo que a psicose e a possessão não são, necessariamente, excludentes; elas podem coexistir e até mesmo interagir.
Quando um paciente apresenta sintomas como alucinações, delírios religiosos (que podem incluir a crença de estar possuído), ou desorganização do pensamento e comportamento – o quadro que a psiquiatria descreve como psicótico – é meu dever profissional buscar o diagnóstico e o tratamento baseado em evidências, como o uso de antipsicóticos e a psicoterapia. O DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) inclusive reconhece a categoria de Transtorno de Transe e de Possessão (TTP), mas enfatiza que o diagnóstico psiquiátrico só se aplica se o estado causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional, e não for uma prática culturalmente aceita ou esperada.
No entanto, o conteúdo dos delírios e alucinações – o "quê" da experiência – é profundamente influenciado pelo contexto cultural e religioso do indivíduo. Estudos sobre delírios religiosos na psicose mostram uma alta prevalência de temas religiosos (como a crença de ser um profeta, ou no nosso caso, estar sob ataque espiritual) em pacientes, especialmente naqueles com forte base religiosa (Siddle et al., 2002; Krzystanek et al., 2012). O demônio ou a entidade maligna podem ser a forma simbólica que o inconsciente, ou a própria doença, encontrou para expressar o sofrimento extremo, o trauma ou a fragmentação do self.
Neste ponto, a possessão demoníaca, do ponto de vista do paciente, torna-se uma estrutura de interpretação para o seu estado psicótico. Não se trata apenas de uma metáfora; para a pessoa, é a realidade. E é aqui que vejo a interconexão:
Psicose como Porta de Entrada: Uma desorganização psíquica (psicose) pode criar uma vulnerabilidade ou um vazio (a "casa vazia" de que falam algumas tradições espirituais) que a mente, sob a influência da crença, preenche com a narrativa da possessão.
Possessão como Conteúdo: A crença na possessão molda a forma como a psicose se manifesta. O paciente pode adotar comportamentos e falas culturalmente associados à possessão (como mudança de voz ou contorções), tornando o quadro clinicamente indistinguível, em certos aspectos, dos relatos de manifestação demoníaca.
Como terapeuta, sou obrigado a tratar a psicose (o "como" do transtorno) sem desconsiderar a crença na possessão (o "quê" do conteúdo). O respeito pela realidade subjetiva do paciente é crucial. Isso não significa endossar a existência literal do demônio, mas reconhecer o poder dessa crença para moldar a experiência de sofrimento e influenciar a busca por ajuda. A cura, portanto, pode exigir uma abordagem integrativa que combine a intervenção psiquiátrica (tratando a disfunção cerebral) com um olhar sensível e, por vezes, um acompanhamento que respeite ou dialogue com as práticas espirituais do paciente, como tem sido discutido em literatura que busca um diagnóstico diferencial entre experiências espirituais/anômalas e psicóticas (SciELO). Afinal, o objetivo é a reintegração e o alívio do sofrimento, e isso exige que abordemos o fenômeno em todas as suas dimensões: biológica, psicológica, social e espiritual.



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